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12/03/2019 - Dia da Mulher: OAB promove debate sobre gênero e raça, com histórias de empoderamento

Reflexões sobre questões de gênero e igualdade raciail estiveram em pauta na OAB Paraná nesta segunda-feira (11) no evento de celebração do Dia Internacional da Mulher, realizado pela seccional e pela Comissão da Mulher Advogada (CMA), com apoio da Caixa dos Advogados do Paraná (CAA-PR). A palestrante convidada foi Alexandra Loras, ex-consulesa da França em São Paulo. Ela debateu com a coordenadora da Escola Superior de Advocacia (ESA), Adriana D’Avila Oliveira, sob a mediação da jornalista Dulcineia Novaes, da RPC TV.
A mesa do evento, como não poderia deixar de ser, foi composta predominantemente por mulheres e presidida por Marilena Winter, vice-presidente da OAB Paraná, que definiu o evento como “inesquecível”. Compuseram ainda a mesa o, secretário-geral da seccional, Rodrigo Sánchez Rios; a secretária-geral adjunta, Christhyanne Regina Bortolotto; a secretária da CAA-PR, Luciana Sbrissia Begs; a advogada medalha Vieira Netto, Edni de Andrade Arruda; a conselheira federal Graciela Marins; a presidente da CMA, Mariana Lopes da Silva Bonfim; e a presidente da Comissão de Estudos de Violência de Gênero (Cevige), Helena Rocha.

Alexandra Loras é considerada hoje uma das personalidades mais atuantes no Brasil nas discussões sobre gênero e raça. A jornalista francesa é mestre em Gestão de Mídia pelo Institut D’Études Politiques de Paris (Sciences Po). Também atua como consultora de empresas e é autora de livros, como Beauté Noire, sobre a beleza de mulheres negras.
“Fomos condicionados, de geração em geração a achar que os homens eram superiores às mulheres. E, de maneira mais sutil, que os brancos eram superiores aos negros”. Ela relatou sua vivência quando chegou ao Brasil, “uma democracia racial”. “Eu esperava encontrar 54% de negros nos espaços de poder, como o Congresso Nacional e os altos cargos de empresas. Achei menos de 1%”, contou. Ela relatou situações que vivenciou, quando as pessoas passavam por ela na residência consular e achavam que era empregada da casa ou quando achavam que ela era a babá do próprio filho em um clube da alta sociedade paulista.

Alexandra se dirigiu ao público presente, que definiu como “formadoras de opinião, mulheres que conseguiram sobrepassar um sistema tão machista e ter histórias de vida inspiradora”. Ela as convidou a irem além de “um certo pensamento no qual somos todos afetados” e chamou a plateia a pensar um mundo inverso: onde tudo feito pelos negros fosse considerado lindo, esteticamente e intelectualmente superior; um mundo em que os livros didáticos mostrassem somente negros como cientistas e pessoas que marcaram a história; onde, nas lojas de brinquedo, houvesse apenas bonecas e heróis negros; e, nas bancas de jornal, apenas pessoas negras em destaque. “Eu gosto de mexer com o Brasil porque o Brasil mexeu muito comigo”, provocou.

A palestrante mostrou então exemplos da publicidade, onde o racismo ainda predomina sutilmente. “Nunca tivemos uma família negra em uma propaganda de margarina ou de pasta de dente. Nós não comemos ou não escovamos os dentes?”, questionou. “O racismo está dentro de todos nós e precisamos entender como desconstrui-lo no dia a dia”, disse.

Passando à questão da mulher, Alexandra observou como ainda são limitados os espaços para as lideranças femininas, onde as mulheres ainda são minoria nos espaços de poder, nos cargos de lideranças das empresas. Ela mencionou que as limitações para as mulheres estão em todos os lugares, são históricas e citou os tão propagados direitos franceses. “Criaram a Declaração dos Direitos do HOMEM”, enfatizou. “Isso em
uma época em que mulheres não tinham direitos”.

Ela fez um convite às alunas de uma escola estadual que participava do evento a serem futuras advogadas “ou o melhor de vocês mesmas”. “Sonhem grande, tenham a coragem de pensar além”, desafiou, advertindo para que não ouçam as vozes que as levam a não acreditar em si mesmas. Alexandra relembrou que quando foi se candidatar para o Institut D’Études Politiques de Paris, pensava se não pareceria ridícula, por ser uma menina negra pleitear uma vaga na melhor escola do ramo. Ela superou esses medos e, não só ingressou no curso que desejava, como foi a melhor aluna.

A dona da casa

Ao dar prosseguimento ao debate, a jornalista Dulcineia Novaes, relatou a história de uma tia sua, mulher negra, que mora no interior do Paraná e tem uma boa casa. Essa mulher, por muitos anos, ouviu pessoas baterem à sua porta e perguntarem se a dona da casa estava. Ela sempre dizia que não. Até que um dia ela disse: “A dona de casa sou eu!”. Para Dulcineia, essa frase sintetiza a mudança na consciência das pessoas sobre si mesmas. A jornalista passou então a palavra a Adriana D’Avila Oliveira, diretora da ESA.

Na mesma trincheira

Ao se pronunciar, Adriana disse que sua participação não geraria exatamente um debate, pois ela concorda com tudo que foi exposto por Alexandra. “Estamos todas na mesma trincheira”, disse. Ela observou que, além da discriminação patriarcal e racista, a sociedade brasileira ainda faz discriminação em razão econômica. “Se nós, que considerados ‘privilegiados’, temos medos e enfrentamos barreiras, quem dirá a maior parte da população que sequer tem acesso ao banco escolar e, quando tem, é muitas vezes de maneira precária”, pontuou.

Adriana relembrou sua trajetória pessoal, nascida em família humilde, no interior do estado, trabalhou desde os 14 anos, quando veio para Curitiba estudar no Cefet. Para se manter, dava aulas particulares de matemática e era meia diarista junto com uma colega, fazendo faxinas na casa de professores no contraturno. “Nossa especialidade era dar comida demais aos peixes e arrumar em degradé os sabonetes coloridos que havia em uma das casas”, relembrou com ternura.

Logo que entrou na faculdade, Adriana passou a secretariar o advogado Carlos Fernando Correa de Castro. Desde então, começou a ouvir piadas, que ainda ouviria muitas vezes ao longo de sua jornada. “Será que esse brotinho dá conta da liminar em Maringá?”, relembra uma das mais duras frases que ouviu. “Poderíamos ter vivido ter ouvido e vivenciado essas chacotas. Muitas vezes essas brincadeiras nos desencorajam”, lamentou.

Ao longo da trajetória profissional, foram rotinas de 14, 16 horas de trabalho por dia. “Para estarmos nas mesmas condição que os profissionais homens, enquanto eles davam uma volta, nós tínhamos que percorrer pelo menos duas quadras”. O esforço acabou resultando em uma mudança de cenário. Hoje ela é a sócia titular do escritório. Se quando ingressou, em 1994, havia 4 pessoas, hoje a banca tem 70 profissionais, sendo 80% mulheres e a maioria dos cargos de gestão ocupados por advogadas.

“Enfrentamos chuvas e trovoadas para chegara até aqui. Hoje vivemos uma realidade alterada, ainda que parcialmente”, disse. Ela citou que, segundo pesquisas, mulheres só são chamadas a preencherem uma vaga quando atendem a pelo menos 85% dos requisitos. Enquanto os homens conseguem cumprindo, em média, apenas 50% das exigências. Adriana ressaltou que não se trata de os homens serem menos competentes ou dedicados, mas que “eles acreditam mais em si mesmos. Sua autoestima foi reforçada desde que são pequenos”, concluiu.

Por fim, a coordenadora da ESA saudou uma mudança de mentalidade com iniciativas como a criação de um espaço kids para atender mães e pais durante o evento, para que, especialmente as mulheres, tenham mais alternativa para participar ativamente dos debates da sociedade.

Fonte: OAB Paraná

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